Se o que devemos nos questionar após lidar com uma pretensa obra de arte é se ela nos trouxe algo de útil, se nos acrescentou algo, o filme No Country for Old Men (Onde os Fracos Não Têm Vez, Joel e Ethan Coel, 2007) não merece atenção, pois a resposta é, sem dúvida, negativa. Um filme com uma história banal, demonstrada por meio de clichês, irrealidades e enorme suspense pode entreter, mas não poderia ser objeto de discussões supostamente relevantes. Infelizmente, estamos em um nível tão pífio de produção cultural (do ponto de vista qualitativo, mas não quantitativo, o que pode soar um paradoxo), que produtos um pouco diferenciados (ainda que do ponto de vista “interno” à sua arte), saltam aos olhos, como é o caso de No Country for Old Men.
O ponto alto da trama, a violência, é exposta de modo, por assim dizer, naturalista e banalizado: mata-se homens, friamente, como se mata gado; sangue é jorrado para todos os lados por todo o filme; apertam o gatilho como se apertassem um botão de celular. Isso não é ser realista; para o ser não necessita de tamanha explicitação, de tamanha banalização. Mesmo que fosse uma história real – o que seria impossível, haja vista a enorme e irreal quantidade de coincidências forçadas – não precisaria utilizar daquilo que temos chamado atenção, basta sugerir – e é assim que fazem os grandes realistas (não existe sequer uma cena de sexo nas milhares de páginas da Comédia Humana, de Balzac). Apesar da extraordinária interpretação de Javier Bardem, a sua pretensa loucura é quase que injustificável e mesmo risível (como na cena da lojinha do Posto Texaco e na cena em que o Chigurh tenta, enquanto dirige por sobre uma ponte, atirar em um pássaro). A loucura de Hamlet é plenamente fundamentada e justificável. Até os fantasmas de Macbeth são mais reais, ou pelo menos mais representativos dessa necessidade humana de cobiça.
E o pior de tudo, é que No Country... comete tantas banalizações justamente por meio de visíveis clichês e coincidências forçadas. Passemos primeiro aos clichês. A primeira cena do filme, uma recorrência “interna”: planos abertos do Texas, a voz de um xerife velho relembrando o passado. Por mais que seja uma característica autoral dos irmãos Coen (e que não sei por que consideram uma marca tão grandiosa, tão inovadora), desde os antigos faroestes já estamos cansados dessa história de “um xerife do Oeste norte-americano – terra dita sem lei – prestes a se aposentar, se defronta com uma trama que envolve assassinatos, dinheiro e drogas, e vai, a todo custo, procurar resolvê-la”. Esse xerife quer defender a mocinha, que é tratada de modo tão machista quanto mais poderia ser enquanto lugar-comum: basta lembrar o caçador Moss chegando tarde em sua casa(-trailler) sem querer dar explicações de onde estava, sentando folgadamente na sofá onde estava sua esposa, e abrindo uma cerveja. E quer maior estupidez (e, como não podia deixar de ser, clichê) do que ele se decidir, no meio da noite, levar água para o mexicano que havia visto quase morto no local do crime? Essa cena me fez lembrar aqueles filmes de terror que víamos quando criança, como Pânico ou Jason: a mocinha sempre voltava, estupidamente, ao encontro do vilão, a despeito do apelo dos espectadores. Claro que a asneira nunca é vã: o vilão aparece. No filme, como se não bastasse, outro carro surge, e, claro, na hora em que Moss ainda está no local. E esse tipo de coincidência é extremamente recorrente no filme e fica até cansativo, por exemplo, nas inúmeras escapatórias por um triz. Dentre essas, as que consegui notar foram: Moss escapa do cão que o persegue ao longo do rio por um triz; o xerife chega na casa de Moss e não pega o vilão por um triz; o vilão não pega a maleta no sótão do hotel por um triz; no outro hotel, Moss descobre o chip na maleta e consegue escapar por um triz; nessa mesma perseguição, ele abaixa a cabeça dentro da caminhonete fração de segundos antes de vir um tiro na sua direção e, mais à frente na cena, Chigurh pula do tiro e não é morto por um triz; o xerife chega, de uma longa viagem, segundos atrasado no hotel em que Moss enfim é morto, não pegando os criminosos por um triz; na última cena, a ambulância não pega Chigurh por um triz. Enfim, se se reparar bem, a construção do suspense do filme, além de, como já dito, contar com elementos naturalistas e banalizar a violência, é feita por vários lugares-comuns e coincidências forçadas. Nesse sentido é que tenho dito que o filme não se aproxima da realidade – e essa aproximação é que deveria ser a preocupação maior de toda obra que se pretenda arte. Por fim, mais um clichê trivial: o caçador, extremamente ensangüentado, passa para o outro lado da fronteira (o lado mexicano, naturalmente) sem ser notado por um policial que dormia, e, para não ficar só nisso, é acordado por um bando de músicos mexicanos bigodudos que tocam por dinheiro. Será que o filme é de comédia?
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
domingo, 13 de setembro de 2009
Reflexo da realidade
É estupidamente óbvio que mesmo um rabisco qualquer que eu faça numa folha será sempre, ainda que indiretamente, um reflexo da realidade, pois qualquer manifestação subjetiva está, de alguma forma, inserida no mundo objetivo e portanto determinada pelas condições reais objetivas, pelas leis gerais que regem a sociedade.
Porém, para que esse reflexo da realidade seja digno de apreciação e estudo, faz-se necessário que o artista tenha pleno domínio da técnica E seja, ainda que ele não se dê conta disso, um fecundo conhecedor e observador dos sujeitos, contradições e necessidades de seu tempo histórico. É bom ressaltar a conjunção aditiva “e”: não basta ter apenas grande habilidade técnica ou apenas grande conhecimento da realidade. Com aquela pode se produzir um entretenimento vazio ou um objeto de decoração (que também têm sua validade, mas não enquanto arte), e com esta pode se produzir um livro de história ou um tratado de filosofia (que também têm sua validade, mas não enquanto arte).
Desse ponto de vista, um grande artista é aquele que consegue narrar com maestria alguma situação (mesmo que aparentemente banal) com realismo, ou seja, sem se furtar da realidade com vistas a propagar a sua ideologia de classe ou a vender seus livros com mais facilidade. Apesar de que, com alguma raridade, aparecem grandes artistas que tem justamente este ou aquele objetivo, mas que conseguem, na sua arte, superá-los. O mais corriqueiro é que os objetivos almejados enquanto pessoa, e não enquanto artista sejam superados: Balzac, um decadente burguês, queria fazer parte da decadente aristocracia, porém, em sua Comédia Humana, ele ridiculariza (pois demonstra a realidade, de fato ridícula) a vida tanto da burguesia que sonha em ser aristocracia quanto da aristocracia que se crê digna de apreciação. Acho difícil que alguém que escreva já pensando em ganhar dinheiro ou em propagandear esta ou aquela ideologia possa ser merecedor de atenção.
Assim justificamos e elevamos a importância da arte: nos faz conhecer mais e melhor o mundo, e, o que é ainda melhor, juntamente com indiscutível deleite estético.
Porém, para que esse reflexo da realidade seja digno de apreciação e estudo, faz-se necessário que o artista tenha pleno domínio da técnica E seja, ainda que ele não se dê conta disso, um fecundo conhecedor e observador dos sujeitos, contradições e necessidades de seu tempo histórico. É bom ressaltar a conjunção aditiva “e”: não basta ter apenas grande habilidade técnica ou apenas grande conhecimento da realidade. Com aquela pode se produzir um entretenimento vazio ou um objeto de decoração (que também têm sua validade, mas não enquanto arte), e com esta pode se produzir um livro de história ou um tratado de filosofia (que também têm sua validade, mas não enquanto arte).
Desse ponto de vista, um grande artista é aquele que consegue narrar com maestria alguma situação (mesmo que aparentemente banal) com realismo, ou seja, sem se furtar da realidade com vistas a propagar a sua ideologia de classe ou a vender seus livros com mais facilidade. Apesar de que, com alguma raridade, aparecem grandes artistas que tem justamente este ou aquele objetivo, mas que conseguem, na sua arte, superá-los. O mais corriqueiro é que os objetivos almejados enquanto pessoa, e não enquanto artista sejam superados: Balzac, um decadente burguês, queria fazer parte da decadente aristocracia, porém, em sua Comédia Humana, ele ridiculariza (pois demonstra a realidade, de fato ridícula) a vida tanto da burguesia que sonha em ser aristocracia quanto da aristocracia que se crê digna de apreciação. Acho difícil que alguém que escreva já pensando em ganhar dinheiro ou em propagandear esta ou aquela ideologia possa ser merecedor de atenção.
Assim justificamos e elevamos a importância da arte: nos faz conhecer mais e melhor o mundo, e, o que é ainda melhor, juntamente com indiscutível deleite estético.
sábado, 5 de setembro de 2009
Shakespeare por Kurosawa - I
Homem Mau Dorme Bem e Hamlet
De maneira sutil mas não fortuita ou banal, o filme Homem Mau Dorme Bem (Wairu yatsu hodo yoku nemuru, Kurosawa,1960) se remete a Hamlet (1602), a obra mais conhecida de William Shakespeare. Além da época, da narrativa e do modo de abordagem distintos – o que não causa espanto em virtude de se tratar de uma adaptação oriental de uma obra ocidental – a história do filme é também completamente diferente. Kurosawa utilizou-se dos elementos fundamentais da obra shakespeariana para construir um contexto dramático e uma realidade assustadora, que reforça a tese de que ele contribuiu sobremaneira para a confirmação da universalidade daquela obra do maior dramaturgo inglês. Aparentemente, são imiscíveis a história de uma longínqua disputa pelo trono dinamarquês com a história da corrupção em uma corporação pública japonesa no pós-Segunda Guerra. Porém, a reação à(s) morte(s), a recorrente ideia do suicídio, a espionagem, a dúvida do amor, a traição e, sobretudo, o desejo e a necessidade de vingança fazem confluir as duas obras. Além disso, Kurosawa nos dá pistas factuais dessa sua intertextualidade: a ideia da vingança surge a partir da conversa do protagonista com um “fantasma” (em Hamlet é um fantasma de fato – o do pai dele – e no filme é um homem que para todos os outros estaria morto – a conversa, inclusive, se dá enquanto vêem o seu próprio enterro); o filho quer, por toda a trama, vingar a morte do pai, e é isso o que o assola e o que faz tomar drásticas decisões (em Homem Mau Dorme Bem, Nishi resolve casar com a filha do suposto assassino do seu pai; enquanto Hamlet mata Polônio, discute com sua mãe, finge – segundo ele próprio – ser louco); há uma complexidade na relação do protagonista com os outros que o cercam por causa da promessa de vingança; o vilão de ambos é da própria família (o tio de Hamlet e o sogro de Nishi); e o assassinato é cometido com vistas à subida de posição na hierarquia em questão (o pai de Nishi, presidente da corporação, é morto pelo vice; o pai de Hamlet, rei da Dinamarca, é morto pelo tio, primeiro sucessor do trono). Outro grande trunfo de Kurosawa nessa reminiscência a Shakespeare é a de colocar o Estado como uma corporação, e vice-versa, ambos à mercê das mãos muitas vezes cruéis de seus donos, que, a favor de suas promoções e privilégios, pouco se importam com seus súditos.
A mais patente diferença entre as obras diz respeito às atitudes dos protagonistas frente à vingança que prometem. Enquanto Hamlet hesita por diversas vezes, se auto-condenando de covarde e só sendo capaz de consumar o ato quando consegue finalmente agir por instinto, mesclando aspectos racionais com irracionais; Nishi não tem essa inércia que possui e mistifica o herói de Shakespeare, deixando transparecer, desde o início, sua vontade e sua capacidade em efetivar a vingança – apesar de também hesitar em alguns momentos, quando por exemplo deixa de jogar um dos assassinos de seu pai pela janela e quando não encara o maior responsável pelo crime, chegando mesmo a dizer “Não é fácil odiar o demônio. Você tem que atiçar sua própria fúria, até se tornar o próprio diabo”).
Apesar, portanto, de não ser uma efetiva adaptação da peça de Shakespeare, Homem Mau Dorme Bem consegue captar com maestria os elementos cruciais de Hamlet, também fazendo o espectador lidar, através de diferentes caminhos (haja vista que são diferentes singularidades), com os valores genéricos supracitados tão caros à arte e, causal e naturalmente, à nossa própria existência.
Esse texto faz parte do meu artigo em construção "SHAKESPEARE POR KUROSAWA: A CONFIRMAÇÃO DA UNIVERSALIDADE DAS OBRAS DO DRAMATURGO INGLÊS", que deve ser publicado em breve. Além de Homem Mau Dorme Bem, haverá no artigo a análise de Trono Machado de Sangue (que é baseado em Macbeth) e Ran (baseado em Rei Lear).
De maneira sutil mas não fortuita ou banal, o filme Homem Mau Dorme Bem (Wairu yatsu hodo yoku nemuru, Kurosawa,1960) se remete a Hamlet (1602), a obra mais conhecida de William Shakespeare. Além da época, da narrativa e do modo de abordagem distintos – o que não causa espanto em virtude de se tratar de uma adaptação oriental de uma obra ocidental – a história do filme é também completamente diferente. Kurosawa utilizou-se dos elementos fundamentais da obra shakespeariana para construir um contexto dramático e uma realidade assustadora, que reforça a tese de que ele contribuiu sobremaneira para a confirmação da universalidade daquela obra do maior dramaturgo inglês. Aparentemente, são imiscíveis a história de uma longínqua disputa pelo trono dinamarquês com a história da corrupção em uma corporação pública japonesa no pós-Segunda Guerra. Porém, a reação à(s) morte(s), a recorrente ideia do suicídio, a espionagem, a dúvida do amor, a traição e, sobretudo, o desejo e a necessidade de vingança fazem confluir as duas obras. Além disso, Kurosawa nos dá pistas factuais dessa sua intertextualidade: a ideia da vingança surge a partir da conversa do protagonista com um “fantasma” (em Hamlet é um fantasma de fato – o do pai dele – e no filme é um homem que para todos os outros estaria morto – a conversa, inclusive, se dá enquanto vêem o seu próprio enterro); o filho quer, por toda a trama, vingar a morte do pai, e é isso o que o assola e o que faz tomar drásticas decisões (em Homem Mau Dorme Bem, Nishi resolve casar com a filha do suposto assassino do seu pai; enquanto Hamlet mata Polônio, discute com sua mãe, finge – segundo ele próprio – ser louco); há uma complexidade na relação do protagonista com os outros que o cercam por causa da promessa de vingança; o vilão de ambos é da própria família (o tio de Hamlet e o sogro de Nishi); e o assassinato é cometido com vistas à subida de posição na hierarquia em questão (o pai de Nishi, presidente da corporação, é morto pelo vice; o pai de Hamlet, rei da Dinamarca, é morto pelo tio, primeiro sucessor do trono). Outro grande trunfo de Kurosawa nessa reminiscência a Shakespeare é a de colocar o Estado como uma corporação, e vice-versa, ambos à mercê das mãos muitas vezes cruéis de seus donos, que, a favor de suas promoções e privilégios, pouco se importam com seus súditos.
A mais patente diferença entre as obras diz respeito às atitudes dos protagonistas frente à vingança que prometem. Enquanto Hamlet hesita por diversas vezes, se auto-condenando de covarde e só sendo capaz de consumar o ato quando consegue finalmente agir por instinto, mesclando aspectos racionais com irracionais; Nishi não tem essa inércia que possui e mistifica o herói de Shakespeare, deixando transparecer, desde o início, sua vontade e sua capacidade em efetivar a vingança – apesar de também hesitar em alguns momentos, quando por exemplo deixa de jogar um dos assassinos de seu pai pela janela e quando não encara o maior responsável pelo crime, chegando mesmo a dizer “Não é fácil odiar o demônio. Você tem que atiçar sua própria fúria, até se tornar o próprio diabo”).
Apesar, portanto, de não ser uma efetiva adaptação da peça de Shakespeare, Homem Mau Dorme Bem consegue captar com maestria os elementos cruciais de Hamlet, também fazendo o espectador lidar, através de diferentes caminhos (haja vista que são diferentes singularidades), com os valores genéricos supracitados tão caros à arte e, causal e naturalmente, à nossa própria existência.
Esse texto faz parte do meu artigo em construção "SHAKESPEARE POR KUROSAWA: A CONFIRMAÇÃO DA UNIVERSALIDADE DAS OBRAS DO DRAMATURGO INGLÊS", que deve ser publicado em breve. Além de Homem Mau Dorme Bem, haverá no artigo a análise de Trono Machado de Sangue (que é baseado em Macbeth) e Ran (baseado em Rei Lear).
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Diálogos Transdisciplinares – Diálogo Primeiro
Sócrates: Ó meu caro Jornalista, que bom ter-me contigo! O quão me lisonjeia vossa presença na horda de Alcebíades! Muito me agrada vossa sabedoria, vossa perspicácia, vossa objetividade, vossa erudição, vosso trato com a linguagem!
Jornalista: Ó Sócrates, caçoas de mim? Não sou mais que um mero reprodutor da realidade. Não tenho outra função senão transmitir aos nossos conspícuos cidadãos um pedaço de tudo que acontece.
Sócrates: Diz-me, pois, que és um instrumento necessário e útil para o conhecimento da realidade? Mas não acha, meu nobre e bom amigo, que a arte não cumpre melhor essa função? Não seria a arte quem consegue, através de seu realismo, de sua magia, ser mais capaz do que o jornalismo em nos transmitir melhor a realidade concreta?
Jornalista: Ora, meu caro Sócrates, não entendo muito bem vossos distintos termos. Bem o sabes que não conheço muito de arte. Sou pago e sempre estudei para conseguir transmitir com propriedade e ética o que se passa nessa nossa Pólis. Tenho um modelo dentro do qual encaixo os fatos. Quando algum acontecimento importante assola a Grécia, apenas recolho os dados, com o pouco que sei sobre o assunto, e construo uma reportagem.
Sócrates: Diz-me, célebre Jornalista, que não conheces de arte. Mas diz-me, com opulência, que transmite a realidade. Não entendo como podes transmitir a realidade sem conhecer a arte. Mas, ó deuses, prefiro morrer a tentar entendê-lo! Se não conheces de arte, que eu, ingenuamente, julgava ser um conhecimento tão necessário aos seus exercícios profissionais, do que é que conheces? No que és especialista?
Jornalistas: Por Zeus, Sócrates, não me repudie, nem duvide de minhas astúcias! Sei arte o suficiente para transmitir da realização de seus eventos! É essa mesma minha função, saber um pouco de tudo, para que abarque todas as aspirações de nossos cidadãos!
Sócrates: Não vos entendo, caro Jornalista. Como podes saber um pouco de tudo? Não seria impossível conhecer de fato a parte de um todo sem conhecer o todo? É como construir uma casa sem entender as estruturas dos alicerces... Sabe-se de tijolos, mas nada de alicerces. Então a casa cai. Há como conhecer um tijolo sem conhecer uma casa, sem conhecer a aplicação prática da coletividade dos tijolos?
Jornalista: Tu me embaraças, caro Sócrates!
Sócrates: Ora Jornalista, certamente que saber um pouco de tudo é saber muito mais do que qualquer especialista, que só sabe muito de uma coisa. Homero sabia muito sobre a Guerra de Tróia, mas certamente que desconhecia os ofícios da aritmética, da biologia e da ourivesaria. Deduzo de vossa antecedente frase, caro Jornalista, que tu sabes um pouco suficientemente para transmitir sobre aritmética, mecânica e ourivesaria. Diz-me, por Zeus, o que és soldagem?
Jornalista: Não sei vos responder.
Sócrates: E modelagem?
Jornalista: Admito não saber.
Sócrates: Não sabes isso, não quer responder ou não sabes nada sobre ourivesaria?
Jornalista: Sei o suficiente.
Sócrates: Ó que homem útil! Ainda não me ensinaram como saber de ourivesaria sem saber de soldagem e de modelagem! Enfim, achei-o! Diga-me Jornalista, por último, há diferença entre um ourives e um jornalista?
Jornalista: Por Zeus Sócrates! A diferença é gritante!
Sócrates: E qual é, astuto Jornalista?
Jornalista: O ourives faz um trabalho puramente mecânico, Sócrates. Ele pega o ouro bruto e transforma em jóias e ornamentos. O jornalista...
Sócrates: Ora, ó Jornalista, tu não me dissestes ainda há pouco que tu pegas um acontecimento importante, quando o há, e encaixa em um modelo? Ainda não entendo a diferença...
Jornalista: Por Zeus Sócrates...
Jornalista: Ó Sócrates, caçoas de mim? Não sou mais que um mero reprodutor da realidade. Não tenho outra função senão transmitir aos nossos conspícuos cidadãos um pedaço de tudo que acontece.
Sócrates: Diz-me, pois, que és um instrumento necessário e útil para o conhecimento da realidade? Mas não acha, meu nobre e bom amigo, que a arte não cumpre melhor essa função? Não seria a arte quem consegue, através de seu realismo, de sua magia, ser mais capaz do que o jornalismo em nos transmitir melhor a realidade concreta?
Jornalista: Ora, meu caro Sócrates, não entendo muito bem vossos distintos termos. Bem o sabes que não conheço muito de arte. Sou pago e sempre estudei para conseguir transmitir com propriedade e ética o que se passa nessa nossa Pólis. Tenho um modelo dentro do qual encaixo os fatos. Quando algum acontecimento importante assola a Grécia, apenas recolho os dados, com o pouco que sei sobre o assunto, e construo uma reportagem.
Sócrates: Diz-me, célebre Jornalista, que não conheces de arte. Mas diz-me, com opulência, que transmite a realidade. Não entendo como podes transmitir a realidade sem conhecer a arte. Mas, ó deuses, prefiro morrer a tentar entendê-lo! Se não conheces de arte, que eu, ingenuamente, julgava ser um conhecimento tão necessário aos seus exercícios profissionais, do que é que conheces? No que és especialista?
Jornalistas: Por Zeus, Sócrates, não me repudie, nem duvide de minhas astúcias! Sei arte o suficiente para transmitir da realização de seus eventos! É essa mesma minha função, saber um pouco de tudo, para que abarque todas as aspirações de nossos cidadãos!
Sócrates: Não vos entendo, caro Jornalista. Como podes saber um pouco de tudo? Não seria impossível conhecer de fato a parte de um todo sem conhecer o todo? É como construir uma casa sem entender as estruturas dos alicerces... Sabe-se de tijolos, mas nada de alicerces. Então a casa cai. Há como conhecer um tijolo sem conhecer uma casa, sem conhecer a aplicação prática da coletividade dos tijolos?
Jornalista: Tu me embaraças, caro Sócrates!
Sócrates: Ora Jornalista, certamente que saber um pouco de tudo é saber muito mais do que qualquer especialista, que só sabe muito de uma coisa. Homero sabia muito sobre a Guerra de Tróia, mas certamente que desconhecia os ofícios da aritmética, da biologia e da ourivesaria. Deduzo de vossa antecedente frase, caro Jornalista, que tu sabes um pouco suficientemente para transmitir sobre aritmética, mecânica e ourivesaria. Diz-me, por Zeus, o que és soldagem?
Jornalista: Não sei vos responder.
Sócrates: E modelagem?
Jornalista: Admito não saber.
Sócrates: Não sabes isso, não quer responder ou não sabes nada sobre ourivesaria?
Jornalista: Sei o suficiente.
Sócrates: Ó que homem útil! Ainda não me ensinaram como saber de ourivesaria sem saber de soldagem e de modelagem! Enfim, achei-o! Diga-me Jornalista, por último, há diferença entre um ourives e um jornalista?
Jornalista: Por Zeus Sócrates! A diferença é gritante!
Sócrates: E qual é, astuto Jornalista?
Jornalista: O ourives faz um trabalho puramente mecânico, Sócrates. Ele pega o ouro bruto e transforma em jóias e ornamentos. O jornalista...
Sócrates: Ora, ó Jornalista, tu não me dissestes ainda há pouco que tu pegas um acontecimento importante, quando o há, e encaixa em um modelo? Ainda não entendo a diferença...
Jornalista: Por Zeus Sócrates...
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Michael Jackson: já foi tarde
Ou melhor, nem deveria ter vindo! Sei que você não vai concordar comigo, mas te desafio a me responder a essa pergunta: o que é que ele trouxe de útil para o desenvolvimento humano?
Considero um artista aquele que nos consegue fazer refletir sobre a realidade dada, sobre o contexto histórico no qual ele se insere, sobre as contradições do ser-humano. O realismo não é, portanto, um estilo ou um método, mas o ponto principal de tudo que se pretende arte. A tendência de nossa pós-modernidade é justamente subverter essa lógica: a “arte” celebrada é aquela que apela – se não única, principalmente – para o sensório, o emotivo, o superficial, que vangloria a forma em detrimento do (agora secundário) conteúdo, que, por fim, consegue abarcar o maior número de pessoas possível, para, além de lucrar, nos empurrar cada vez mais para uma vida desintelectualizada, bestial, acrítica e de prazeres fugazes.
Michael Jackson, então, tem todas essas características pós-modernas, o que me faz julgá-lo como mais um ícone da degradação artística (no caso dele, degradação humana também) tão patente a partir da segunda metade do século XX. O que eu aprendo o escutando ou dançando? Bem sei também que não posso exigir que tudo nessa vida tenha que nos fazer refletir sobre algo maior (apesar de ter vontade de assim o afirmar), mas o que digo é que me soa uma enorme imprudência qualificá-lo como “um grande artista de nosso tempo”. Aliás, o nosso tempo não tem grandes artistas! E não sou eu quem vai provar isso, é o próprio tempo: vide como outras manifestações pops já foram ou estão sendo esquecidas (Mamonas Assassinas, Beatles, Elvis Presley, Xuxa, O Poderoso Chefão, Andy Wharol e muitos outros que, não por acaso, não consigo lembrar agora); enquanto de outro lado, os verdadeiros realistas estão vivíssimos há já 10.000 anos (Homero), 400 (Cervantes), 200 (Beethoven, Balzac, Goya), 100 (Machado de Assis, Eisenstein). Enquanto existir humanidade, esses existirão! Ao contrário daqueles outros.
Música animada para dançar em boate, coreografia bizarra e voz boa tem para todo lado. Se não tivéssemos Michael Jackson, dançaríamos Queen, Bee Gees, ou qualquer um outro que, possivelmente, ia aparecer. Agora, se não tivesse existido Balzac, compreenderíamos muito menos da sociedade francesa pós-revolução; se não tivesse existido Shakespeare, conheceríamos muito menos das nossas próprias angústias e ambições; se não tivesse existido Hesíodo, saberíamos muito menos da Grécia Antiga.
Então, amigos, para não me incomodar, simplesmente não coloquem Michael Jackson no mesmo balaio dessa turma toda (com a aparentemente simples expressão “grande artista”), trate-o de “ícone pop” (que muita gente considera elogio), aí ficamos conversados.
Considero um artista aquele que nos consegue fazer refletir sobre a realidade dada, sobre o contexto histórico no qual ele se insere, sobre as contradições do ser-humano. O realismo não é, portanto, um estilo ou um método, mas o ponto principal de tudo que se pretende arte. A tendência de nossa pós-modernidade é justamente subverter essa lógica: a “arte” celebrada é aquela que apela – se não única, principalmente – para o sensório, o emotivo, o superficial, que vangloria a forma em detrimento do (agora secundário) conteúdo, que, por fim, consegue abarcar o maior número de pessoas possível, para, além de lucrar, nos empurrar cada vez mais para uma vida desintelectualizada, bestial, acrítica e de prazeres fugazes.
Michael Jackson, então, tem todas essas características pós-modernas, o que me faz julgá-lo como mais um ícone da degradação artística (no caso dele, degradação humana também) tão patente a partir da segunda metade do século XX. O que eu aprendo o escutando ou dançando? Bem sei também que não posso exigir que tudo nessa vida tenha que nos fazer refletir sobre algo maior (apesar de ter vontade de assim o afirmar), mas o que digo é que me soa uma enorme imprudência qualificá-lo como “um grande artista de nosso tempo”. Aliás, o nosso tempo não tem grandes artistas! E não sou eu quem vai provar isso, é o próprio tempo: vide como outras manifestações pops já foram ou estão sendo esquecidas (Mamonas Assassinas, Beatles, Elvis Presley, Xuxa, O Poderoso Chefão, Andy Wharol e muitos outros que, não por acaso, não consigo lembrar agora); enquanto de outro lado, os verdadeiros realistas estão vivíssimos há já 10.000 anos (Homero), 400 (Cervantes), 200 (Beethoven, Balzac, Goya), 100 (Machado de Assis, Eisenstein). Enquanto existir humanidade, esses existirão! Ao contrário daqueles outros.
Música animada para dançar em boate, coreografia bizarra e voz boa tem para todo lado. Se não tivéssemos Michael Jackson, dançaríamos Queen, Bee Gees, ou qualquer um outro que, possivelmente, ia aparecer. Agora, se não tivesse existido Balzac, compreenderíamos muito menos da sociedade francesa pós-revolução; se não tivesse existido Shakespeare, conheceríamos muito menos das nossas próprias angústias e ambições; se não tivesse existido Hesíodo, saberíamos muito menos da Grécia Antiga.
Então, amigos, para não me incomodar, simplesmente não coloquem Michael Jackson no mesmo balaio dessa turma toda (com a aparentemente simples expressão “grande artista”), trate-o de “ícone pop” (que muita gente considera elogio), aí ficamos conversados.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Realismo em Stanley Kubrick
Ainda que reconheça os primores técnicos dos filmes de Kubrick, insisto em afirmar: seus personagens típicos, sua crítica à degradação humana, seu sarcasmo e seus presságios, ou seja e num geral, seu REALISMO, é o que torna sua obra um esplendor artístico que não precisará se esforçar para perdurar na história. Seus filmes, portanto, não são grandes obras de arte apesar de seu realismo ou também por causa de seu realismo, mas principalmente pelo seu realismo!
Diferentemente da maioria das grandes produções cinematográficas, Kubrick não é entretenimento vazio, não é apenas uma ótima aplicação da técnica, não é alheio à realidade concreta e à degradação da humanidade. Os filmes fincam os pés nessa realidade objetiva, refletindo-a, criticando-a, ironizando-a. Aliás, o cineasta utiliza-se, exagerando e ironizando, dos vícios bestiais das produções tipicamente hollywoodianas justamente para criticá-las e para criticar nossa sociedade (que, boçalmente, consome tais barbarismos). Vide o abuso da sexualidade, demonstrado em ‘De Olhos Bem Fechados’ (1999): nos entregamos fácil e inconsequentemente ao refúgio escapista dos prazeres carnais, escondidos por trás de nossas máscaras, de nossas reprimendas, de nossos medos.
Na temática guerra, tão bem explorada por Kubrick, podemos ver uma rejeição (também presente às vezes no exagero irônico da própria utilização) do uso sensacionalista e trivialmente emotivo que as tradicionais produções sobre guerra empregam. Assim, perfaz-se uma crítica audaz não só à esse tipo de produção, mas também à predisposição humana à apreciação da violência e do abuso de um ser-humano por parte de outro supostamente inferior (Nascido Para Matar, 1987). A cena inicial, em que o Sargento Hartman se apresenta para os novos recrutados, é significativa:
É explicitada, também, a supremacia que a humanização deve ter sobre essa barbárie animalesca que é a guerra (Glória Feita de Sangue, 1957). Não há como não se emocionar com a cena final, a contrapelo das crueldades das batalhas:
Kubrick é talvez o único cineasta eminentemente realista de nossa era pós-moderna. O pioneiro não foi senão Sergei Einseinstein, que utilizou de um apurado conhecimento teórico e uma audácia revolucionária na utilização de recursos cinematográficos – e isso é o que é secundário em sua obra – para nos mostrar com inigualável realismo sua visão (e a visão dos comunistas daquela época) sobre a Revolução Russa de 1917, que foi um dos momentos históricos mais importantes para a humanidade – e isso é o que é a sua principal contribuição.
Stanley nos mostra também que o realismo não impede a comédia, a diversão. Por meio do sarcasmo e da ironia, presente em vários filmes dele, Kubrick ressalta um ou outro ponto de vista seu (ou de sua época). Algumas banais discussões entre um norte-americano e um soviético e mesmo as atitudes de ambos em Dr. Stranglove, por exemplo, representam exatamente a cega incongruência na qual entrara a guerra fria. Em Laranja Mecânica, é memorável a utilização que o personagem Alex faz de uma escultura em forma de pênis para matar uma senhora – de uma só vez, Kubrick exalta e desmarcara, com ironia, toda essa tendência eminentemente mercadológica em se explorar o sexo e a violência. Como já citado, o tratamento de guerra desumano na primeira parte de Nascido para Matar também representa uma fina ironia tanto para os modos mesmo de recrutamento para a guerra do Vietnã e para tantas outras guerras financiadas pelas grandes potências, quanto para a exploração que se faz disso – de modo acrítico – sobretudo no cinema e na TV.
O fato é que, com Stanley Kubrick, aprendemos muito da condição humana – e de seus devaneios, jogos de interesse, bestialidades, desejos reprimidos – e do próprio fazer cinematográfico – aparentemente criticando essa tendência mercadológica pelas quais a grande parte dos diretores, produtores e empresas ousa em aderir.
Diferentemente da maioria das grandes produções cinematográficas, Kubrick não é entretenimento vazio, não é apenas uma ótima aplicação da técnica, não é alheio à realidade concreta e à degradação da humanidade. Os filmes fincam os pés nessa realidade objetiva, refletindo-a, criticando-a, ironizando-a. Aliás, o cineasta utiliza-se, exagerando e ironizando, dos vícios bestiais das produções tipicamente hollywoodianas justamente para criticá-las e para criticar nossa sociedade (que, boçalmente, consome tais barbarismos). Vide o abuso da sexualidade, demonstrado em ‘De Olhos Bem Fechados’ (1999): nos entregamos fácil e inconsequentemente ao refúgio escapista dos prazeres carnais, escondidos por trás de nossas máscaras, de nossas reprimendas, de nossos medos.
Na temática guerra, tão bem explorada por Kubrick, podemos ver uma rejeição (também presente às vezes no exagero irônico da própria utilização) do uso sensacionalista e trivialmente emotivo que as tradicionais produções sobre guerra empregam. Assim, perfaz-se uma crítica audaz não só à esse tipo de produção, mas também à predisposição humana à apreciação da violência e do abuso de um ser-humano por parte de outro supostamente inferior (Nascido Para Matar, 1987). A cena inicial, em que o Sargento Hartman se apresenta para os novos recrutados, é significativa:
É explicitada, também, a supremacia que a humanização deve ter sobre essa barbárie animalesca que é a guerra (Glória Feita de Sangue, 1957). Não há como não se emocionar com a cena final, a contrapelo das crueldades das batalhas:
Kubrick é talvez o único cineasta eminentemente realista de nossa era pós-moderna. O pioneiro não foi senão Sergei Einseinstein, que utilizou de um apurado conhecimento teórico e uma audácia revolucionária na utilização de recursos cinematográficos – e isso é o que é secundário em sua obra – para nos mostrar com inigualável realismo sua visão (e a visão dos comunistas daquela época) sobre a Revolução Russa de 1917, que foi um dos momentos históricos mais importantes para a humanidade – e isso é o que é a sua principal contribuição.
Stanley nos mostra também que o realismo não impede a comédia, a diversão. Por meio do sarcasmo e da ironia, presente em vários filmes dele, Kubrick ressalta um ou outro ponto de vista seu (ou de sua época). Algumas banais discussões entre um norte-americano e um soviético e mesmo as atitudes de ambos em Dr. Stranglove, por exemplo, representam exatamente a cega incongruência na qual entrara a guerra fria. Em Laranja Mecânica, é memorável a utilização que o personagem Alex faz de uma escultura em forma de pênis para matar uma senhora – de uma só vez, Kubrick exalta e desmarcara, com ironia, toda essa tendência eminentemente mercadológica em se explorar o sexo e a violência. Como já citado, o tratamento de guerra desumano na primeira parte de Nascido para Matar também representa uma fina ironia tanto para os modos mesmo de recrutamento para a guerra do Vietnã e para tantas outras guerras financiadas pelas grandes potências, quanto para a exploração que se faz disso – de modo acrítico – sobretudo no cinema e na TV.
O fato é que, com Stanley Kubrick, aprendemos muito da condição humana – e de seus devaneios, jogos de interesse, bestialidades, desejos reprimidos – e do próprio fazer cinematográfico – aparentemente criticando essa tendência mercadológica pelas quais a grande parte dos diretores, produtores e empresas ousa em aderir.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
27º Festivale – Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha
Entre os dias 26 de julho e 1º de agosto de 2009 tive a satisfação de trabalhar na Assessoria de Comunicação do 27º Festivale, que aconteceu em Grão Mogol, norte de Minas Gerais. Esse evento, que é realizado pela FECAJE – Federação das Entidades Artísticas e Culturais do Vale do Jequitinhonha – e pela prefeitura da cidade, é sediado a cada ano em uma cidade diferente do Vale do Jequitinhonha, uma das regiões menos desenvolvidas de Minas Gerais, mas que conta com uma cultura riquíssima e um povo extremamente batalhador, humilde e inteligente.
A Assessoria contou com estudantes de jornalismo, professor e técnico da UFMG, integrantes da ONG AIC (Associação Imagem Comunitária) e jovens das cidades de Araçuaí, Grão Mogol, Itaobim e Padre Paraíso, que haviam recebido capacitação anteriormente. No total, 30 pessoas participaram. Houve 4 frentes, todas com produção e veiculação diária: impresso, radifônico, audiovisual e web.
O que mais me comovia era ver a satisfação dos meninos ao ver os produtos que eles ajudaram a fazer “no ar”. Se não fosse a AIC e o Polo, a grande maioria dos jovens nunca teria a oportunidade de pegar em uma câmera, de sentar a frente de um computador para postar em um blog, de conversar com grandes artistas, de conviver com tanta cultura, de se relacionar tão diretamente com pessoas de universos tão diferentes. Sinto que proporcionar isso a eles foi de uma importância crucial na vida de todos. Eles não são mais os mesmos, definitivamente. Todos tiveram uma experiência profissional e pessoal ímpar, que irá ajudá-los – e já os ajuda – a se relacionar, a ter disciplina, a dar sugestões, a ser ativo, a se sentir importante. A maior lição pessoal que tiro desse trabalho é que nós – estudantes, professores, técnicos – devemos sempre ter a sensibilidade de estimular e ajudar jovens como esses, que, talvez por conta do vídeo, do computador, da leitura, da cultura, é que não estão indo no caminho errado, no caminho das drogas, da submissão, da desistência. Essa resistência cultural é uma resistência de vida, frente a todas barreiras a todo instante impostas a eles. Para saltá-los, as pernas desses meninos estão muito mais largas ao final do Festivale.
E essa sensação se estende aos jovens de outras cidades, outros projetos, que vi nas ruas, brincando de ciranda, fazendo oficinas, declamando poemas... É maravilhoso ver que, a despeito da imposição da indústria cultural, que faz parecer que não existe nada além dela, esses jovens estão se despertando para a cultura que realmente os representa, para a ideia de que há espaço para eles se manifestarem. Sem dúvida alguma, sentir esse foco de resistência foi o que mais me gratificou em ter trabalhado e curtido o Festivale.
Aliás, do ponto de vista artístico cabe uma reflexão: para mim, arte é aquilo que, com refinado domínio da forma, reflete a realidade. Se através da arte for haver diversão, por exemplo, deve ser uma conseqüência e não um princípio. Nesse sentido, pensemos nas atrações do 27º Festivale... A partir delas pudemos, ainda que não tenhamos percebido, conhecer muito mais do Vale do Jequitinhonha – e veja que eu não disse apenas da cultura do Vale do Jequitinhonha. Através das roupas, dos chapéus, dos sons, dos tambores, das letras, das danças, dos coros, pudemos saber como é a vida de um jequitinhonhense típico. É o coral que canta o canto das lavadeiras, é o artesanato que expõe o sertanejo, as roupas e as bebidas da região, é o cantor que nos faz dançar ciranda, é o forró e o samba de raiz, o poema realista, são os grupos de folia, as apresentações de teatro... Enfim, o Festivale é de fato a união não só da cultura do Vale do Jequitinhonha, mas a reunião do que representa o Vale, do que é viver no Vale. Para conhecer essa região, o evento é um prato cheio. E acredito que eu consegui abocanhá-lo.
Do ponto de vista acadêmico, a contribuição da experiência passa pelos mesmos pontos: como quero trabalhar com crítica de arte, e sempre me via cético em relação à cultura popular, o Festivale me mostrou que não há nada mais espontâneo e sincero do que as manifestações genuinamente populares, e que a cultura que emana de fato do povo ainda resiste bravamente frente às imposições unilaterais.
A Assessoria contou com estudantes de jornalismo, professor e técnico da UFMG, integrantes da ONG AIC (Associação Imagem Comunitária) e jovens das cidades de Araçuaí, Grão Mogol, Itaobim e Padre Paraíso, que haviam recebido capacitação anteriormente. No total, 30 pessoas participaram. Houve 4 frentes, todas com produção e veiculação diária: impresso, radifônico, audiovisual e web.
O que mais me comovia era ver a satisfação dos meninos ao ver os produtos que eles ajudaram a fazer “no ar”. Se não fosse a AIC e o Polo, a grande maioria dos jovens nunca teria a oportunidade de pegar em uma câmera, de sentar a frente de um computador para postar em um blog, de conversar com grandes artistas, de conviver com tanta cultura, de se relacionar tão diretamente com pessoas de universos tão diferentes. Sinto que proporcionar isso a eles foi de uma importância crucial na vida de todos. Eles não são mais os mesmos, definitivamente. Todos tiveram uma experiência profissional e pessoal ímpar, que irá ajudá-los – e já os ajuda – a se relacionar, a ter disciplina, a dar sugestões, a ser ativo, a se sentir importante. A maior lição pessoal que tiro desse trabalho é que nós – estudantes, professores, técnicos – devemos sempre ter a sensibilidade de estimular e ajudar jovens como esses, que, talvez por conta do vídeo, do computador, da leitura, da cultura, é que não estão indo no caminho errado, no caminho das drogas, da submissão, da desistência. Essa resistência cultural é uma resistência de vida, frente a todas barreiras a todo instante impostas a eles. Para saltá-los, as pernas desses meninos estão muito mais largas ao final do Festivale.
E essa sensação se estende aos jovens de outras cidades, outros projetos, que vi nas ruas, brincando de ciranda, fazendo oficinas, declamando poemas... É maravilhoso ver que, a despeito da imposição da indústria cultural, que faz parecer que não existe nada além dela, esses jovens estão se despertando para a cultura que realmente os representa, para a ideia de que há espaço para eles se manifestarem. Sem dúvida alguma, sentir esse foco de resistência foi o que mais me gratificou em ter trabalhado e curtido o Festivale.
Aliás, do ponto de vista artístico cabe uma reflexão: para mim, arte é aquilo que, com refinado domínio da forma, reflete a realidade. Se através da arte for haver diversão, por exemplo, deve ser uma conseqüência e não um princípio. Nesse sentido, pensemos nas atrações do 27º Festivale... A partir delas pudemos, ainda que não tenhamos percebido, conhecer muito mais do Vale do Jequitinhonha – e veja que eu não disse apenas da cultura do Vale do Jequitinhonha. Através das roupas, dos chapéus, dos sons, dos tambores, das letras, das danças, dos coros, pudemos saber como é a vida de um jequitinhonhense típico. É o coral que canta o canto das lavadeiras, é o artesanato que expõe o sertanejo, as roupas e as bebidas da região, é o cantor que nos faz dançar ciranda, é o forró e o samba de raiz, o poema realista, são os grupos de folia, as apresentações de teatro... Enfim, o Festivale é de fato a união não só da cultura do Vale do Jequitinhonha, mas a reunião do que representa o Vale, do que é viver no Vale. Para conhecer essa região, o evento é um prato cheio. E acredito que eu consegui abocanhá-lo.
Do ponto de vista acadêmico, a contribuição da experiência passa pelos mesmos pontos: como quero trabalhar com crítica de arte, e sempre me via cético em relação à cultura popular, o Festivale me mostrou que não há nada mais espontâneo e sincero do que as manifestações genuinamente populares, e que a cultura que emana de fato do povo ainda resiste bravamente frente às imposições unilaterais.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Ode ao Realismo!
A justiça da homenagem, que raramente é realizada de fato, estaria feita se eu começasse esse blog com uma produção artística que justificaria não só o meu apego à arte, mas mesmo a sua própria existência. Seria ela, sem dúvida, uma obra essencialmente realista. Se bem que eu não seria de modo algum injusto se eu lançasse esse blog com uma miséria pós-moderna: só se justifica a defesa enfática do realismo em virtude da persistência dessas contrariações fugazes mas em contínua e sustentável substituição. Porém, escolhendo esta alternativa eu seria desaforado com o mundo fragmentário – que diz impossível o estabelecimento de metanarrativas e discursos totalizantes (“totalitários”) – preferindo Marcel Duchamp a Andy Wharol, Beatles a Madonna, Paulo Coelho a JK Rowling ou Nam June Paik a Almodóvar. E escolhendo a primeira opção, tentando fazer justiça a meus grandes mestres estéticos, seria doloroso ter que optar por um ou outro dentre Balzac, Kafka, Machado de Assis, Tolstoi, Shakespeare, Beethoven, Bach, Picasso, Goya, Kubrick, Kurosawa e tantos outros ícones realistas.
Sinto-me um pouco satisfeito, então, tento citado alguns dos meus deuses e meus demônios. Espero, ao longo das postagens, defender aqueles e repudiar esses, mostrando porque uns estão fadados à eternidade enquanto de outros o tempo (curto) dará conta. Não sou eu, nem ninguém (talvez com a honrosa exceção de Lukács), que conseguirá convencer a gregos e troianos (para usar Homero que não coloquei na minha lista acima) que a arte só é ARTE se realista ela for, ou seja, se refletir, a seu modo, a realidade objetiva. O tempo, repito, se encarregará dessa fácil missão. Vou tentar exigir de um neto, se inteligente e estudado for, que cumpra uma promessa por mim: se em 2100 se continuar a apreciar e a estudar os “artistas” pós-modernos citados, ele pode queimar tudo o que eu tenha escrito (para não dizer que possa queimar toda minha biblioteca eminentemente realista). Ou pode, o que também não deixa de ser uma decisão sensata, desistir de sua resistência. Pode, ainda e por fim, se entregar, de corpo e alma, à esses prazeres sensórios fugazes. Essa última alternativa, cá pra nós, não esbanja dignidade.
Sinto-me um pouco satisfeito, então, tento citado alguns dos meus deuses e meus demônios. Espero, ao longo das postagens, defender aqueles e repudiar esses, mostrando porque uns estão fadados à eternidade enquanto de outros o tempo (curto) dará conta. Não sou eu, nem ninguém (talvez com a honrosa exceção de Lukács), que conseguirá convencer a gregos e troianos (para usar Homero que não coloquei na minha lista acima) que a arte só é ARTE se realista ela for, ou seja, se refletir, a seu modo, a realidade objetiva. O tempo, repito, se encarregará dessa fácil missão. Vou tentar exigir de um neto, se inteligente e estudado for, que cumpra uma promessa por mim: se em 2100 se continuar a apreciar e a estudar os “artistas” pós-modernos citados, ele pode queimar tudo o que eu tenha escrito (para não dizer que possa queimar toda minha biblioteca eminentemente realista). Ou pode, o que também não deixa de ser uma decisão sensata, desistir de sua resistência. Pode, ainda e por fim, se entregar, de corpo e alma, à esses prazeres sensórios fugazes. Essa última alternativa, cá pra nós, não esbanja dignidade.
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