Homem Mau Dorme Bem e Hamlet
De maneira sutil mas não fortuita ou banal, o filme Homem Mau Dorme Bem (Wairu yatsu hodo yoku nemuru, Kurosawa,1960) se remete a Hamlet (1602), a obra mais conhecida de William Shakespeare. Além da época, da narrativa e do modo de abordagem distintos – o que não causa espanto em virtude de se tratar de uma adaptação oriental de uma obra ocidental – a história do filme é também completamente diferente. Kurosawa utilizou-se dos elementos fundamentais da obra shakespeariana para construir um contexto dramático e uma realidade assustadora, que reforça a tese de que ele contribuiu sobremaneira para a confirmação da universalidade daquela obra do maior dramaturgo inglês. Aparentemente, são imiscíveis a história de uma longínqua disputa pelo trono dinamarquês com a história da corrupção em uma corporação pública japonesa no pós-Segunda Guerra. Porém, a reação à(s) morte(s), a recorrente ideia do suicídio, a espionagem, a dúvida do amor, a traição e, sobretudo, o desejo e a necessidade de vingança fazem confluir as duas obras. Além disso, Kurosawa nos dá pistas factuais dessa sua intertextualidade: a ideia da vingança surge a partir da conversa do protagonista com um “fantasma” (em Hamlet é um fantasma de fato – o do pai dele – e no filme é um homem que para todos os outros estaria morto – a conversa, inclusive, se dá enquanto vêem o seu próprio enterro); o filho quer, por toda a trama, vingar a morte do pai, e é isso o que o assola e o que faz tomar drásticas decisões (em Homem Mau Dorme Bem, Nishi resolve casar com a filha do suposto assassino do seu pai; enquanto Hamlet mata Polônio, discute com sua mãe, finge – segundo ele próprio – ser louco); há uma complexidade na relação do protagonista com os outros que o cercam por causa da promessa de vingança; o vilão de ambos é da própria família (o tio de Hamlet e o sogro de Nishi); e o assassinato é cometido com vistas à subida de posição na hierarquia em questão (o pai de Nishi, presidente da corporação, é morto pelo vice; o pai de Hamlet, rei da Dinamarca, é morto pelo tio, primeiro sucessor do trono). Outro grande trunfo de Kurosawa nessa reminiscência a Shakespeare é a de colocar o Estado como uma corporação, e vice-versa, ambos à mercê das mãos muitas vezes cruéis de seus donos, que, a favor de suas promoções e privilégios, pouco se importam com seus súditos.
A mais patente diferença entre as obras diz respeito às atitudes dos protagonistas frente à vingança que prometem. Enquanto Hamlet hesita por diversas vezes, se auto-condenando de covarde e só sendo capaz de consumar o ato quando consegue finalmente agir por instinto, mesclando aspectos racionais com irracionais; Nishi não tem essa inércia que possui e mistifica o herói de Shakespeare, deixando transparecer, desde o início, sua vontade e sua capacidade em efetivar a vingança – apesar de também hesitar em alguns momentos, quando por exemplo deixa de jogar um dos assassinos de seu pai pela janela e quando não encara o maior responsável pelo crime, chegando mesmo a dizer “Não é fácil odiar o demônio. Você tem que atiçar sua própria fúria, até se tornar o próprio diabo”).
Apesar, portanto, de não ser uma efetiva adaptação da peça de Shakespeare, Homem Mau Dorme Bem consegue captar com maestria os elementos cruciais de Hamlet, também fazendo o espectador lidar, através de diferentes caminhos (haja vista que são diferentes singularidades), com os valores genéricos supracitados tão caros à arte e, causal e naturalmente, à nossa própria existência.
Esse texto faz parte do meu artigo em construção "SHAKESPEARE POR KUROSAWA: A CONFIRMAÇÃO DA UNIVERSALIDADE DAS OBRAS DO DRAMATURGO INGLÊS", que deve ser publicado em breve. Além de Homem Mau Dorme Bem, haverá no artigo a análise de Trono Machado de Sangue (que é baseado em Macbeth) e Ran (baseado em Rei Lear).
sábado, 5 de setembro de 2009
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