quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Realismo em Stanley Kubrick

Ainda que reconheça os primores técnicos dos filmes de Kubrick, insisto em afirmar: seus personagens típicos, sua crítica à degradação humana, seu sarcasmo e seus presságios, ou seja e num geral, seu REALISMO, é o que torna sua obra um esplendor artístico que não precisará se esforçar para perdurar na história. Seus filmes, portanto, não são grandes obras de arte apesar de seu realismo ou também por causa de seu realismo, mas principalmente pelo seu realismo!

Diferentemente da maioria das grandes produções cinematográficas, Kubrick não é entretenimento vazio, não é apenas uma ótima aplicação da técnica, não é alheio à realidade concreta e à degradação da humanidade. Os filmes fincam os pés nessa realidade objetiva, refletindo-a, criticando-a, ironizando-a. Aliás, o cineasta utiliza-se, exagerando e ironizando, dos vícios bestiais das produções tipicamente hollywoodianas justamente para criticá-las e para criticar nossa sociedade (que, boçalmente, consome tais barbarismos). Vide o abuso da sexualidade, demonstrado em ‘De Olhos Bem Fechados’ (1999): nos entregamos fácil e inconsequentemente ao refúgio escapista dos prazeres carnais, escondidos por trás de nossas máscaras, de nossas reprimendas, de nossos medos.

Na temática guerra, tão bem explorada por Kubrick, podemos ver uma rejeição (também presente às vezes no exagero irônico da própria utilização) do uso sensacionalista e trivialmente emotivo que as tradicionais produções sobre guerra empregam. Assim, perfaz-se uma crítica audaz não só à esse tipo de produção, mas também à predisposição humana à apreciação da violência e do abuso de um ser-humano por parte de outro supostamente inferior (Nascido Para Matar, 1987). A cena inicial, em que o Sargento Hartman se apresenta para os novos recrutados, é significativa:



É explicitada, também, a supremacia que a humanização deve ter sobre essa barbárie animalesca que é a guerra (Glória Feita de Sangue, 1957). Não há como não se emocionar com a cena final, a contrapelo das crueldades das batalhas:




Kubrick é talvez o único cineasta eminentemente realista de nossa era pós-moderna. O pioneiro não foi senão Sergei Einseinstein, que utilizou de um apurado conhecimento teórico e uma audácia revolucionária na utilização de recursos cinematográficos – e isso é o que é secundário em sua obra – para nos mostrar com inigualável realismo sua visão (e a visão dos comunistas daquela época) sobre a Revolução Russa de 1917, que foi um dos momentos históricos mais importantes para a humanidade – e isso é o que é a sua principal contribuição.

Stanley nos mostra também que o realismo não impede a comédia, a diversão. Por meio do sarcasmo e da ironia, presente em vários filmes dele, Kubrick ressalta um ou outro ponto de vista seu (ou de sua época). Algumas banais discussões entre um norte-americano e um soviético e mesmo as atitudes de ambos em Dr. Stranglove, por exemplo, representam exatamente a cega incongruência na qual entrara a guerra fria. Em Laranja Mecânica, é memorável a utilização que o personagem Alex faz de uma escultura em forma de pênis para matar uma senhora – de uma só vez, Kubrick exalta e desmarcara, com ironia, toda essa tendência eminentemente mercadológica em se explorar o sexo e a violência. Como já citado, o tratamento de guerra desumano na primeira parte de Nascido para Matar também representa uma fina ironia tanto para os modos mesmo de recrutamento para a guerra do Vietnã e para tantas outras guerras financiadas pelas grandes potências, quanto para a exploração que se faz disso – de modo acrítico – sobretudo no cinema e na TV.

O fato é que, com Stanley Kubrick, aprendemos muito da condição humana – e de seus devaneios, jogos de interesse, bestialidades, desejos reprimidos – e do próprio fazer cinematográfico – aparentemente criticando essa tendência mercadológica pelas quais a grande parte dos diretores, produtores e empresas ousa em aderir.

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