Entre os dias 26 de julho e 1º de agosto de 2009 tive a satisfação de trabalhar na Assessoria de Comunicação do 27º Festivale, que aconteceu em Grão Mogol, norte de Minas Gerais. Esse evento, que é realizado pela FECAJE – Federação das Entidades Artísticas e Culturais do Vale do Jequitinhonha – e pela prefeitura da cidade, é sediado a cada ano em uma cidade diferente do Vale do Jequitinhonha, uma das regiões menos desenvolvidas de Minas Gerais, mas que conta com uma cultura riquíssima e um povo extremamente batalhador, humilde e inteligente.
A Assessoria contou com estudantes de jornalismo, professor e técnico da UFMG, integrantes da ONG AIC (Associação Imagem Comunitária) e jovens das cidades de Araçuaí, Grão Mogol, Itaobim e Padre Paraíso, que haviam recebido capacitação anteriormente. No total, 30 pessoas participaram. Houve 4 frentes, todas com produção e veiculação diária: impresso, radifônico, audiovisual e web.
O que mais me comovia era ver a satisfação dos meninos ao ver os produtos que eles ajudaram a fazer “no ar”. Se não fosse a AIC e o Polo, a grande maioria dos jovens nunca teria a oportunidade de pegar em uma câmera, de sentar a frente de um computador para postar em um blog, de conversar com grandes artistas, de conviver com tanta cultura, de se relacionar tão diretamente com pessoas de universos tão diferentes. Sinto que proporcionar isso a eles foi de uma importância crucial na vida de todos. Eles não são mais os mesmos, definitivamente. Todos tiveram uma experiência profissional e pessoal ímpar, que irá ajudá-los – e já os ajuda – a se relacionar, a ter disciplina, a dar sugestões, a ser ativo, a se sentir importante. A maior lição pessoal que tiro desse trabalho é que nós – estudantes, professores, técnicos – devemos sempre ter a sensibilidade de estimular e ajudar jovens como esses, que, talvez por conta do vídeo, do computador, da leitura, da cultura, é que não estão indo no caminho errado, no caminho das drogas, da submissão, da desistência. Essa resistência cultural é uma resistência de vida, frente a todas barreiras a todo instante impostas a eles. Para saltá-los, as pernas desses meninos estão muito mais largas ao final do Festivale.
E essa sensação se estende aos jovens de outras cidades, outros projetos, que vi nas ruas, brincando de ciranda, fazendo oficinas, declamando poemas... É maravilhoso ver que, a despeito da imposição da indústria cultural, que faz parecer que não existe nada além dela, esses jovens estão se despertando para a cultura que realmente os representa, para a ideia de que há espaço para eles se manifestarem. Sem dúvida alguma, sentir esse foco de resistência foi o que mais me gratificou em ter trabalhado e curtido o Festivale.
Aliás, do ponto de vista artístico cabe uma reflexão: para mim, arte é aquilo que, com refinado domínio da forma, reflete a realidade. Se através da arte for haver diversão, por exemplo, deve ser uma conseqüência e não um princípio. Nesse sentido, pensemos nas atrações do 27º Festivale... A partir delas pudemos, ainda que não tenhamos percebido, conhecer muito mais do Vale do Jequitinhonha – e veja que eu não disse apenas da cultura do Vale do Jequitinhonha. Através das roupas, dos chapéus, dos sons, dos tambores, das letras, das danças, dos coros, pudemos saber como é a vida de um jequitinhonhense típico. É o coral que canta o canto das lavadeiras, é o artesanato que expõe o sertanejo, as roupas e as bebidas da região, é o cantor que nos faz dançar ciranda, é o forró e o samba de raiz, o poema realista, são os grupos de folia, as apresentações de teatro... Enfim, o Festivale é de fato a união não só da cultura do Vale do Jequitinhonha, mas a reunião do que representa o Vale, do que é viver no Vale. Para conhecer essa região, o evento é um prato cheio. E acredito que eu consegui abocanhá-lo.
Do ponto de vista acadêmico, a contribuição da experiência passa pelos mesmos pontos: como quero trabalhar com crítica de arte, e sempre me via cético em relação à cultura popular, o Festivale me mostrou que não há nada mais espontâneo e sincero do que as manifestações genuinamente populares, e que a cultura que emana de fato do povo ainda resiste bravamente frente às imposições unilaterais.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
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