Se o que devemos nos questionar após lidar com uma pretensa obra de arte é se ela nos trouxe algo de útil, se nos acrescentou algo, o filme No Country for Old Men (Onde os Fracos Não Têm Vez, Joel e Ethan Coel, 2007) não merece atenção, pois a resposta é, sem dúvida, negativa. Um filme com uma história banal, demonstrada por meio de clichês, irrealidades e enorme suspense pode entreter, mas não poderia ser objeto de discussões supostamente relevantes. Infelizmente, estamos em um nível tão pífio de produção cultural (do ponto de vista qualitativo, mas não quantitativo, o que pode soar um paradoxo), que produtos um pouco diferenciados (ainda que do ponto de vista “interno” à sua arte), saltam aos olhos, como é o caso de No Country for Old Men.
O ponto alto da trama, a violência, é exposta de modo, por assim dizer, naturalista e banalizado: mata-se homens, friamente, como se mata gado; sangue é jorrado para todos os lados por todo o filme; apertam o gatilho como se apertassem um botão de celular. Isso não é ser realista; para o ser não necessita de tamanha explicitação, de tamanha banalização. Mesmo que fosse uma história real – o que seria impossível, haja vista a enorme e irreal quantidade de coincidências forçadas – não precisaria utilizar daquilo que temos chamado atenção, basta sugerir – e é assim que fazem os grandes realistas (não existe sequer uma cena de sexo nas milhares de páginas da Comédia Humana, de Balzac). Apesar da extraordinária interpretação de Javier Bardem, a sua pretensa loucura é quase que injustificável e mesmo risível (como na cena da lojinha do Posto Texaco e na cena em que o Chigurh tenta, enquanto dirige por sobre uma ponte, atirar em um pássaro). A loucura de Hamlet é plenamente fundamentada e justificável. Até os fantasmas de Macbeth são mais reais, ou pelo menos mais representativos dessa necessidade humana de cobiça.
E o pior de tudo, é que No Country... comete tantas banalizações justamente por meio de visíveis clichês e coincidências forçadas. Passemos primeiro aos clichês. A primeira cena do filme, uma recorrência “interna”: planos abertos do Texas, a voz de um xerife velho relembrando o passado. Por mais que seja uma característica autoral dos irmãos Coen (e que não sei por que consideram uma marca tão grandiosa, tão inovadora), desde os antigos faroestes já estamos cansados dessa história de “um xerife do Oeste norte-americano – terra dita sem lei – prestes a se aposentar, se defronta com uma trama que envolve assassinatos, dinheiro e drogas, e vai, a todo custo, procurar resolvê-la”. Esse xerife quer defender a mocinha, que é tratada de modo tão machista quanto mais poderia ser enquanto lugar-comum: basta lembrar o caçador Moss chegando tarde em sua casa(-trailler) sem querer dar explicações de onde estava, sentando folgadamente na sofá onde estava sua esposa, e abrindo uma cerveja. E quer maior estupidez (e, como não podia deixar de ser, clichê) do que ele se decidir, no meio da noite, levar água para o mexicano que havia visto quase morto no local do crime? Essa cena me fez lembrar aqueles filmes de terror que víamos quando criança, como Pânico ou Jason: a mocinha sempre voltava, estupidamente, ao encontro do vilão, a despeito do apelo dos espectadores. Claro que a asneira nunca é vã: o vilão aparece. No filme, como se não bastasse, outro carro surge, e, claro, na hora em que Moss ainda está no local. E esse tipo de coincidência é extremamente recorrente no filme e fica até cansativo, por exemplo, nas inúmeras escapatórias por um triz. Dentre essas, as que consegui notar foram: Moss escapa do cão que o persegue ao longo do rio por um triz; o xerife chega na casa de Moss e não pega o vilão por um triz; o vilão não pega a maleta no sótão do hotel por um triz; no outro hotel, Moss descobre o chip na maleta e consegue escapar por um triz; nessa mesma perseguição, ele abaixa a cabeça dentro da caminhonete fração de segundos antes de vir um tiro na sua direção e, mais à frente na cena, Chigurh pula do tiro e não é morto por um triz; o xerife chega, de uma longa viagem, segundos atrasado no hotel em que Moss enfim é morto, não pegando os criminosos por um triz; na última cena, a ambulância não pega Chigurh por um triz. Enfim, se se reparar bem, a construção do suspense do filme, além de, como já dito, contar com elementos naturalistas e banalizar a violência, é feita por vários lugares-comuns e coincidências forçadas. Nesse sentido é que tenho dito que o filme não se aproxima da realidade – e essa aproximação é que deveria ser a preocupação maior de toda obra que se pretenda arte. Por fim, mais um clichê trivial: o caçador, extremamente ensangüentado, passa para o outro lado da fronteira (o lado mexicano, naturalmente) sem ser notado por um policial que dormia, e, para não ficar só nisso, é acordado por um bando de músicos mexicanos bigodudos que tocam por dinheiro. Será que o filme é de comédia?
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
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