Sócrates: Ó meu caro Jornalista, que bom ter-me contigo! O quão me lisonjeia vossa presença na horda de Alcebíades! Muito me agrada vossa sabedoria, vossa perspicácia, vossa objetividade, vossa erudição, vosso trato com a linguagem!
Jornalista: Ó Sócrates, caçoas de mim? Não sou mais que um mero reprodutor da realidade. Não tenho outra função senão transmitir aos nossos conspícuos cidadãos um pedaço de tudo que acontece.
Sócrates: Diz-me, pois, que és um instrumento necessário e útil para o conhecimento da realidade? Mas não acha, meu nobre e bom amigo, que a arte não cumpre melhor essa função? Não seria a arte quem consegue, através de seu realismo, de sua magia, ser mais capaz do que o jornalismo em nos transmitir melhor a realidade concreta?
Jornalista: Ora, meu caro Sócrates, não entendo muito bem vossos distintos termos. Bem o sabes que não conheço muito de arte. Sou pago e sempre estudei para conseguir transmitir com propriedade e ética o que se passa nessa nossa Pólis. Tenho um modelo dentro do qual encaixo os fatos. Quando algum acontecimento importante assola a Grécia, apenas recolho os dados, com o pouco que sei sobre o assunto, e construo uma reportagem.
Sócrates: Diz-me, célebre Jornalista, que não conheces de arte. Mas diz-me, com opulência, que transmite a realidade. Não entendo como podes transmitir a realidade sem conhecer a arte. Mas, ó deuses, prefiro morrer a tentar entendê-lo! Se não conheces de arte, que eu, ingenuamente, julgava ser um conhecimento tão necessário aos seus exercícios profissionais, do que é que conheces? No que és especialista?
Jornalistas: Por Zeus, Sócrates, não me repudie, nem duvide de minhas astúcias! Sei arte o suficiente para transmitir da realização de seus eventos! É essa mesma minha função, saber um pouco de tudo, para que abarque todas as aspirações de nossos cidadãos!
Sócrates: Não vos entendo, caro Jornalista. Como podes saber um pouco de tudo? Não seria impossível conhecer de fato a parte de um todo sem conhecer o todo? É como construir uma casa sem entender as estruturas dos alicerces... Sabe-se de tijolos, mas nada de alicerces. Então a casa cai. Há como conhecer um tijolo sem conhecer uma casa, sem conhecer a aplicação prática da coletividade dos tijolos?
Jornalista: Tu me embaraças, caro Sócrates!
Sócrates: Ora Jornalista, certamente que saber um pouco de tudo é saber muito mais do que qualquer especialista, que só sabe muito de uma coisa. Homero sabia muito sobre a Guerra de Tróia, mas certamente que desconhecia os ofícios da aritmética, da biologia e da ourivesaria. Deduzo de vossa antecedente frase, caro Jornalista, que tu sabes um pouco suficientemente para transmitir sobre aritmética, mecânica e ourivesaria. Diz-me, por Zeus, o que és soldagem?
Jornalista: Não sei vos responder.
Sócrates: E modelagem?
Jornalista: Admito não saber.
Sócrates: Não sabes isso, não quer responder ou não sabes nada sobre ourivesaria?
Jornalista: Sei o suficiente.
Sócrates: Ó que homem útil! Ainda não me ensinaram como saber de ourivesaria sem saber de soldagem e de modelagem! Enfim, achei-o! Diga-me Jornalista, por último, há diferença entre um ourives e um jornalista?
Jornalista: Por Zeus Sócrates! A diferença é gritante!
Sócrates: E qual é, astuto Jornalista?
Jornalista: O ourives faz um trabalho puramente mecânico, Sócrates. Ele pega o ouro bruto e transforma em jóias e ornamentos. O jornalista...
Sócrates: Ora, ó Jornalista, tu não me dissestes ainda há pouco que tu pegas um acontecimento importante, quando o há, e encaixa em um modelo? Ainda não entendo a diferença...
Jornalista: Por Zeus Sócrates...
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
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Talvez seja esta a origem da crise do nosso jornalismo: querem saber um pouco de tudo, mas por saberem pouco de muitas coisas, nunca conhecerão o suficiente.
ResponderExcluirA literatura é um excelente espelho da nossa realidade. Vide Machado de Assis, Honorè Balzac, dentre outros, grandes conhecedores da sociedade de seu tempo. Pouco conhecimento não seria capaz de esmiuçar nossa sociedade e muito menos o nosso tempo.
Por Zeus, por Zeus...isso refletiria a tendencia humana de recorrer à religiosidade quando não é capaz de explicar qualquer fenômeno ou fato?