domingo, 7 de março de 2010

Pedaço de filme

O que justifica a realização de uma pretensa obra de arte é o fato de ela dizer algo de uma forma que nunca antes fora dita e de uma fora que só através dela se pode dizer. Já de cara, portanto, o aparentemente aclamado curta-metragem mineiro “Pedaço de Papel” está descartado: apesar de ter como eixo uma ideia que, se bem trabalhada, poderia render uma boa história (a de seguir a trajetória de uma nota de dinheiro desde sua fabricação até seu destino final), o filme traz uma sucessão de clichês que todos estão cansados de ver não só na televisão e no cinema mas também na vida real. Para ver as desgraças que o homem comete em torno do dinheiro tal como vi eu definitivamente não precisaria de enfrentar fila e perder algumas horas do meu sábado.

E não é justificativa dizer que a produção teve baixíssimo orçamento e, apesar disso, conseguiu aplicar certos rigores técnicos que, não fosse a capacidade e dedicação dos produtores, não se conseguiria. Ora, se o curta tem a pretensão (e acho que as produções independentes devem mesmo ter essa pretensão) de ser uma alternativa à produção dominante, não adianta se dedicar ao máximo em torno da aplicação das técnicas: se o público quiser ver e ouvir efeitos especiais e se impressionar com grandiosidades formais ele vai a qualquer cinema comercial e vê um filme em 3D. Se quisermos ter alternativas (e, na verdade, o Brasil quase nunca teve – apenas em raras exceções como O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte) temos que, repetindo, contar histórias inovadoras, críticas, realistas. Esse antigo filme aqui supracitado não precisou de nenhum efeito especial para representar, até hoje, um retrato contumaz do brasileiro de uma forma que nunca foi contada e que só conseguimos perceber através daquele filme.

Falta-me comprovar a sucessão de clichês:
- A vida como um decurso de desgraças (isso, além de clichê, é mentira);
- A ideia de que o dinheiro que financia um crime é o mesmo que financiará outros sucessivos crimes (Me lembrei, inclusive, daquela que sempre vejo nos DVD’s que alugo: “O dinheiro que vai para a pirataria é o dinheiro que financia o tráfico”). Existem, dentre um crime e outro, múltiplas determinações e ramificações.
- Todos os crimes já foram contados mil vezes daquelas formas do filme: o dinheiro que se paga ao pastor é o mesmo que este usa para seu próprio conforto, gastando-o com coisas que os fiéis não poderiam saber, como divertir em boate; dessa boate sai uma stripper que é estuprada por policiais corruptos, um dos policiais é pai de um viciado em droga (que usa a nota para cheirar cocaína), e assim por diante. A cena em que um dos assaltantes compra a arma é risível: a câmera, de cima, mostra a arma sendo colocada na mesa em troca de um maço de dinheiro.

E contra a suposta crítica que o filme suscita sobre O homem faz desgraças e comete crimes por causa de um mero pedaço de papel. Primeiro: o dinheiro não é só um pedaço de papel. O próprio filme aliás já vai se contradizendo: em todas as transações que aparecem, não é só aquela nota de 10 que participa: ela é apenas uma dentre muitas outras (outras de mais valor inclusive). Aí já seriam pedaços de papel. Mas ainda assim: o dinheiro não é só pedaços de papel. O dinheiro, na sociedade capitalista, é o elemento de unificação entre as diferentes mercadorias. É a expressão dessa unificação em função do ouro, que é o elemento raro e durável que as trocas sempre procuraram. Marx, no primeiro capítulo dO Capital já nos mostra que essa forma que o valor ganhou é característica da sociedade capitalista e nos fecha os olhos para o que realmente existe em comum entre as mercadorias: o trabalho humano. E é isso que confere valor às mercadorias. O dinheiro é fruto de dispêndio de força de trabalho, não é só um pedaço de papel. E, além do mais, a sociedade capitalista é movida por esses pedaços de papel, de modo que não podemos considerar que o dinheiro é apenas isso: aqui, ele compra tudo. De qualquer forma, acho um absurdo tentar fazer qualquer coisa criticando o dinheiro sem conhecer o grande tratado de crítica do dinheiro na sociedade capitalista, que é O Capital.

Para finalizar, alguns elogios: o trabalho da produção (da qual conheço e até gosto de alguns integrantes) foi visivelmente árduo e, por serem quase todos iniciantes, digno de nota. A divulgação foi extremamente bem feita. E, em relação ao filme: de certo modo explorou bem a ideia do crime retornando para os ‘criminosos’ (apesar de que poderia ser ainda mais bem explorada: por exemplo, a primeira mulher do filme, que doa dinheiro para o pastor, poderia estar na loja em que ocorre o assalto); o final, que inclusive é talvez a única parte que dispensa aplicação técnica rigorosa, é a melhor parte do filme – sutil, sincero e comovente é também a única vez que o dinheiro não é usado desgraçadamente.

Isso para não falar no estilo do diretor.

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