segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Papilas Gustativas

Faz tempo que um filme não tinha me atordoado tanto quanto Estômago. Mas atordoado no bom sentido: gerando incômodo, reflexão, vontade de discuti-lo com alguém, vontade de aprender a cozinhar. Além disso, vários elementos garantem um certo realismo ao filme.

Antes de continuar, uma ressalta: o filme tem um pé no naturalismo. Ou seja, explora – ainda que dentro dos limites do aceitável (ao contrário de um outro brasileiro que não consegui continuar a ver: Feliz Natal – poderíamos dizer que Selton Mello como diretor é um ótimo ator) – as cruezas do homem (com toda ambigüidade que isso possa trazer, SAMIA, 2010). Mas Estômago vai além do naturalismo, não fica nessa exploração gratuita. Em tempo: os closes de comidas, as comidas estragadas, a prostituição descarada, a hierarquia e os estereótipos na prisão, as pessoas comendo deseducadamente (e é disso tudo que eu falo quando situo o filme naturalista) podem ser vistos como componentes da lógica discursiva da obra, ou seja, contribuem com o conteúdo do filme. Nesse aspecto, está perdoado o naturalismo. Outro elemento que chama o naturalismo é o título. Ora, no estômago, como dizem no próprio filme, “vai misturar tudo mesmo”. O que nos faz sentir o gosto da comida são as papilas gustativas! E como o filme trata de uma culinária refinada, de uma comida que provoca prazer, aí vai minha indicação de título: Papilas Gustativas.

E onde poderíamos situar o realismo? Bem, diversos elementos do filme convidam a nossa autoconsciência histórica, o nosso reconhecimento de que ali trata-se do gênero humano – onde, portanto, nos reconhecemos: a enorme humanidade e simplicidade do personagem principal – com o qual, inclusive, somos levados a criar relação de afetividade (ficamos incomodados com o fato de saber, desde o comecinho do filme, que ele foi preso e que, portanto, cometeu um crime. E, a propósito, não é fácil fazer um papel de paraibano pobre e simples sem cair no clichê, no estereótipo banal); o gosto pela boa comida (o que mais me deu vontade de comer foi a coxinha, quando a prostituta a come com uma voracidade naturalista); as dificuldades financeiras pelas quais passa um retirante nordestino numa cidade grande do Sudeste; a vontade de agradar por agradar; a existência de uma habilidade técnica desconectada de um supostamente necessário conhecimento de fato; a exploração do empregado pelo patrão e do mais fraco pelo mais forte (no caso da cela da prisão); a necessidade e possibilidade de se auto-afirmar frente a esses exploradores...

O cinema brasileiro vem me surpreendendo desde que vi O Pagador de Promessas, e Estômago é mais uma boa surpresa.

domingo, 7 de março de 2010

Pedaço de filme

O que justifica a realização de uma pretensa obra de arte é o fato de ela dizer algo de uma forma que nunca antes fora dita e de uma fora que só através dela se pode dizer. Já de cara, portanto, o aparentemente aclamado curta-metragem mineiro “Pedaço de Papel” está descartado: apesar de ter como eixo uma ideia que, se bem trabalhada, poderia render uma boa história (a de seguir a trajetória de uma nota de dinheiro desde sua fabricação até seu destino final), o filme traz uma sucessão de clichês que todos estão cansados de ver não só na televisão e no cinema mas também na vida real. Para ver as desgraças que o homem comete em torno do dinheiro tal como vi eu definitivamente não precisaria de enfrentar fila e perder algumas horas do meu sábado.

E não é justificativa dizer que a produção teve baixíssimo orçamento e, apesar disso, conseguiu aplicar certos rigores técnicos que, não fosse a capacidade e dedicação dos produtores, não se conseguiria. Ora, se o curta tem a pretensão (e acho que as produções independentes devem mesmo ter essa pretensão) de ser uma alternativa à produção dominante, não adianta se dedicar ao máximo em torno da aplicação das técnicas: se o público quiser ver e ouvir efeitos especiais e se impressionar com grandiosidades formais ele vai a qualquer cinema comercial e vê um filme em 3D. Se quisermos ter alternativas (e, na verdade, o Brasil quase nunca teve – apenas em raras exceções como O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte) temos que, repetindo, contar histórias inovadoras, críticas, realistas. Esse antigo filme aqui supracitado não precisou de nenhum efeito especial para representar, até hoje, um retrato contumaz do brasileiro de uma forma que nunca foi contada e que só conseguimos perceber através daquele filme.

Falta-me comprovar a sucessão de clichês:
- A vida como um decurso de desgraças (isso, além de clichê, é mentira);
- A ideia de que o dinheiro que financia um crime é o mesmo que financiará outros sucessivos crimes (Me lembrei, inclusive, daquela que sempre vejo nos DVD’s que alugo: “O dinheiro que vai para a pirataria é o dinheiro que financia o tráfico”). Existem, dentre um crime e outro, múltiplas determinações e ramificações.
- Todos os crimes já foram contados mil vezes daquelas formas do filme: o dinheiro que se paga ao pastor é o mesmo que este usa para seu próprio conforto, gastando-o com coisas que os fiéis não poderiam saber, como divertir em boate; dessa boate sai uma stripper que é estuprada por policiais corruptos, um dos policiais é pai de um viciado em droga (que usa a nota para cheirar cocaína), e assim por diante. A cena em que um dos assaltantes compra a arma é risível: a câmera, de cima, mostra a arma sendo colocada na mesa em troca de um maço de dinheiro.

E contra a suposta crítica que o filme suscita sobre O homem faz desgraças e comete crimes por causa de um mero pedaço de papel. Primeiro: o dinheiro não é só um pedaço de papel. O próprio filme aliás já vai se contradizendo: em todas as transações que aparecem, não é só aquela nota de 10 que participa: ela é apenas uma dentre muitas outras (outras de mais valor inclusive). Aí já seriam pedaços de papel. Mas ainda assim: o dinheiro não é só pedaços de papel. O dinheiro, na sociedade capitalista, é o elemento de unificação entre as diferentes mercadorias. É a expressão dessa unificação em função do ouro, que é o elemento raro e durável que as trocas sempre procuraram. Marx, no primeiro capítulo dO Capital já nos mostra que essa forma que o valor ganhou é característica da sociedade capitalista e nos fecha os olhos para o que realmente existe em comum entre as mercadorias: o trabalho humano. E é isso que confere valor às mercadorias. O dinheiro é fruto de dispêndio de força de trabalho, não é só um pedaço de papel. E, além do mais, a sociedade capitalista é movida por esses pedaços de papel, de modo que não podemos considerar que o dinheiro é apenas isso: aqui, ele compra tudo. De qualquer forma, acho um absurdo tentar fazer qualquer coisa criticando o dinheiro sem conhecer o grande tratado de crítica do dinheiro na sociedade capitalista, que é O Capital.

Para finalizar, alguns elogios: o trabalho da produção (da qual conheço e até gosto de alguns integrantes) foi visivelmente árduo e, por serem quase todos iniciantes, digno de nota. A divulgação foi extremamente bem feita. E, em relação ao filme: de certo modo explorou bem a ideia do crime retornando para os ‘criminosos’ (apesar de que poderia ser ainda mais bem explorada: por exemplo, a primeira mulher do filme, que doa dinheiro para o pastor, poderia estar na loja em que ocorre o assalto); o final, que inclusive é talvez a única parte que dispensa aplicação técnica rigorosa, é a melhor parte do filme – sutil, sincero e comovente é também a única vez que o dinheiro não é usado desgraçadamente.

Isso para não falar no estilo do diretor.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Avatar avisa: o cinema acabou!

Pelo menos aquele tradicional cinema que conhecíamos (e que valorizávamos), em que via o dedo do diretor (mais do que o do cara dos efeitos especiais ou o do editor); em que sentíamos que aquilo era baseado na vida real e que, talvez por isso, nos incomodava; em que éramos levados a refletir não sobre os escatológicos efeitos coloridos e barulhos arrebatadores, mas sobre alguma condição humana, social ou histórica. A única e talvez forçada reflexão a que pode nos levar ‘Avatar’ é por ela mesma derrotada: essa grande exaltação da tecnologia e da indústria cultural é usada, paradoxalmente, para mostrar uma impossível vitória de inexistentes naturebas sobre a ambição humana de levar a tecnologia ao domínio total da natureza. Ferreira Gullar, em artigo na Folha de S. Paulo é enfático: “O filme é contraditório ao mostrar a vitória da cultura mítica, primitiva, de Pandora, sobre a mais avançada tecnologia, quando ele mesmo, como cinema, é uma exaltação da civilização tecnológica.” O artigo impressiona, inclusive, porque Gullar parecia ser um adepto dessas coloridas artes pós-modernas, como o concretismo.

Mais do que nunca, o cinema dialoga com as tendências das outras manifestações da indústria cultural: o apelo primordial é ao sensório; a técnica impressiona muito e o conteúdo é mero componente (a história de ‘Avatar’, inclusive, é banal e já foi contada muitas vezes por Holywood); o espectador fica atordoado com o espetáculo visual e sonoro (mas com a cabeça vazia).

O pessimista prognóstico de Adorno vai se confirmando: o esclarecimento vai ultrapassando seus próprios limites e, com o cientificismo e tecnicismo absolutos, contribui, contraditoriamente, à bestialização e aprisionamento das massas. A arte que nos leva a reflexão (como a boa literatura, o bom cinema, a boa música) vai perdendo todas suas batalhas: não conseguirá nunca mais competir com essas explosões em 3D. Se no século XIX o indivíduo tinha que se render à Balzac se quisesse fugir um pouco do pragmatismo do seu cotidiano (o que o levava, ainda que sem querer, a compreender melhor aquela França pós-Revolução); hoje ele vai ao cinema, põe óculos especiais e se diverte muito mais. É impossível querer que nossos filhos sejam diferenciados e gostem de ler e de fazer jogos de raciocínio: a sociedade os empurram para o espetáculo das cores e dos sons e, gradualmente, eles vão perdendo o que nem conquistaram: a capacidade de reflexão e crítica. Atualizamos Adorno: a regressão não é só na audição.

O realismo, pedra angular de toda arte que se pretende grande, virou piada de mau gosto. Vejamos bem: sobre ‘Avatar’, um ambientalista de uma ONG qualquer ou um infundado anti-imperialista poderia dizer que representa a desmedida ambição do homem pós-moderno em dominar os últimos lugares, bichos e povos que ainda não foram a ele subjugados (ainda que esses não o faça nada de mau); ou representa as eternas guerras compradas pelos EUA para ‘dominar o mundo’ (o ‘ataque preventivo’ utilizado pelos terráqueos no filme, inclusive, encaixa perfeitamente com o empreendido por Bush no Oriente Médio). Para o ambientalista eu poderia dizer que não precisa gastar 500 milhões de dólares para mostrar isso (enquanto o mundo sucumbe face ao aquecimento global e bilhões de pessoas passam por necessidades básicas); e também que não há qualquer chance de resquícios de ‘nativos’, ‘aborígenes’ e ‘índios’ chegar perto de vencer uma investida “civilizatória”. Essa, aliás, é uma briga já enterrada: bajulação de peles-vermelhas não têm a importância que acreditam. Para o anti-imperialista eu diria primeiro que o próprio filme, batendo recordes de público e de bilheteria, já representa por si próprio a dominância da indústria norte-americana no entretenimento mundial. E, depois, que as possíveis metáforas do filme são obscurecidas pelos espetaculares efeitos visuais e sonoros. Os sons, as cores, os bichos são tão arrebatadores e dinâmicos que não há qualquer chance dos já imbecilizados espectadores perceberem qualquer ‘mensagem nas entrelinhas’. O conteúdo aqui, apesar de ainda importante (se o “mau” vencesse, por exemplo, talvez o filme não seria tão aclamado) é secundário – confirmando a tendência ‘formalística’ da arte pós-moderna.

Infelizmente, esse que parece ser o caminho a ser seguido pelo cinema. Não haverá mais espaço para crítica, para grandes diretores, para realismo... O cinema será o que de melhor o homem tecnicamente produz, ainda que para isso (e talvez seja essa uma prerrogativa básica) tenha que sacrificar o conteúdo.