Pelo menos aquele tradicional cinema que conhecíamos (e que valorizávamos), em que via o dedo do diretor (mais do que o do cara dos efeitos especiais ou o do editor); em que sentíamos que aquilo era baseado na vida real e que, talvez por isso, nos incomodava; em que éramos levados a refletir não sobre os escatológicos efeitos coloridos e barulhos arrebatadores, mas sobre alguma condição humana, social ou histórica. A única e talvez forçada reflexão a que pode nos levar ‘Avatar’ é por ela mesma derrotada: essa grande exaltação da tecnologia e da indústria cultural é usada, paradoxalmente, para mostrar uma impossível vitória de inexistentes naturebas sobre a ambição humana de levar a tecnologia ao domínio total da natureza. Ferreira Gullar, em artigo na Folha de S. Paulo é enfático: “O filme é contraditório ao mostrar a vitória da cultura mítica, primitiva, de Pandora, sobre a mais avançada tecnologia, quando ele mesmo, como cinema, é uma exaltação da civilização tecnológica.” O artigo impressiona, inclusive, porque Gullar parecia ser um adepto dessas coloridas artes pós-modernas, como o concretismo.
Mais do que nunca, o cinema dialoga com as tendências das outras manifestações da indústria cultural: o apelo primordial é ao sensório; a técnica impressiona muito e o conteúdo é mero componente (a história de ‘Avatar’, inclusive, é banal e já foi contada muitas vezes por Holywood); o espectador fica atordoado com o espetáculo visual e sonoro (mas com a cabeça vazia).
O pessimista prognóstico de Adorno vai se confirmando: o esclarecimento vai ultrapassando seus próprios limites e, com o cientificismo e tecnicismo absolutos, contribui, contraditoriamente, à bestialização e aprisionamento das massas. A arte que nos leva a reflexão (como a boa literatura, o bom cinema, a boa música) vai perdendo todas suas batalhas: não conseguirá nunca mais competir com essas explosões em 3D. Se no século XIX o indivíduo tinha que se render à Balzac se quisesse fugir um pouco do pragmatismo do seu cotidiano (o que o levava, ainda que sem querer, a compreender melhor aquela França pós-Revolução); hoje ele vai ao cinema, põe óculos especiais e se diverte muito mais. É impossível querer que nossos filhos sejam diferenciados e gostem de ler e de fazer jogos de raciocínio: a sociedade os empurram para o espetáculo das cores e dos sons e, gradualmente, eles vão perdendo o que nem conquistaram: a capacidade de reflexão e crítica. Atualizamos Adorno: a regressão não é só na audição.
O realismo, pedra angular de toda arte que se pretende grande, virou piada de mau gosto. Vejamos bem: sobre ‘Avatar’, um ambientalista de uma ONG qualquer ou um infundado anti-imperialista poderia dizer que representa a desmedida ambição do homem pós-moderno em dominar os últimos lugares, bichos e povos que ainda não foram a ele subjugados (ainda que esses não o faça nada de mau); ou representa as eternas guerras compradas pelos EUA para ‘dominar o mundo’ (o ‘ataque preventivo’ utilizado pelos terráqueos no filme, inclusive, encaixa perfeitamente com o empreendido por Bush no Oriente Médio). Para o ambientalista eu poderia dizer que não precisa gastar 500 milhões de dólares para mostrar isso (enquanto o mundo sucumbe face ao aquecimento global e bilhões de pessoas passam por necessidades básicas); e também que não há qualquer chance de resquícios de ‘nativos’, ‘aborígenes’ e ‘índios’ chegar perto de vencer uma investida “civilizatória”. Essa, aliás, é uma briga já enterrada: bajulação de peles-vermelhas não têm a importância que acreditam. Para o anti-imperialista eu diria primeiro que o próprio filme, batendo recordes de público e de bilheteria, já representa por si próprio a dominância da indústria norte-americana no entretenimento mundial. E, depois, que as possíveis metáforas do filme são obscurecidas pelos espetaculares efeitos visuais e sonoros. Os sons, as cores, os bichos são tão arrebatadores e dinâmicos que não há qualquer chance dos já imbecilizados espectadores perceberem qualquer ‘mensagem nas entrelinhas’. O conteúdo aqui, apesar de ainda importante (se o “mau” vencesse, por exemplo, talvez o filme não seria tão aclamado) é secundário – confirmando a tendência ‘formalística’ da arte pós-moderna.
Infelizmente, esse que parece ser o caminho a ser seguido pelo cinema. Não haverá mais espaço para crítica, para grandes diretores, para realismo... O cinema será o que de melhor o homem tecnicamente produz, ainda que para isso (e talvez seja essa uma prerrogativa básica) tenha que sacrificar o conteúdo.
Mais do que nunca, o cinema dialoga com as tendências das outras manifestações da indústria cultural: o apelo primordial é ao sensório; a técnica impressiona muito e o conteúdo é mero componente (a história de ‘Avatar’, inclusive, é banal e já foi contada muitas vezes por Holywood); o espectador fica atordoado com o espetáculo visual e sonoro (mas com a cabeça vazia).
O pessimista prognóstico de Adorno vai se confirmando: o esclarecimento vai ultrapassando seus próprios limites e, com o cientificismo e tecnicismo absolutos, contribui, contraditoriamente, à bestialização e aprisionamento das massas. A arte que nos leva a reflexão (como a boa literatura, o bom cinema, a boa música) vai perdendo todas suas batalhas: não conseguirá nunca mais competir com essas explosões em 3D. Se no século XIX o indivíduo tinha que se render à Balzac se quisesse fugir um pouco do pragmatismo do seu cotidiano (o que o levava, ainda que sem querer, a compreender melhor aquela França pós-Revolução); hoje ele vai ao cinema, põe óculos especiais e se diverte muito mais. É impossível querer que nossos filhos sejam diferenciados e gostem de ler e de fazer jogos de raciocínio: a sociedade os empurram para o espetáculo das cores e dos sons e, gradualmente, eles vão perdendo o que nem conquistaram: a capacidade de reflexão e crítica. Atualizamos Adorno: a regressão não é só na audição.
O realismo, pedra angular de toda arte que se pretende grande, virou piada de mau gosto. Vejamos bem: sobre ‘Avatar’, um ambientalista de uma ONG qualquer ou um infundado anti-imperialista poderia dizer que representa a desmedida ambição do homem pós-moderno em dominar os últimos lugares, bichos e povos que ainda não foram a ele subjugados (ainda que esses não o faça nada de mau); ou representa as eternas guerras compradas pelos EUA para ‘dominar o mundo’ (o ‘ataque preventivo’ utilizado pelos terráqueos no filme, inclusive, encaixa perfeitamente com o empreendido por Bush no Oriente Médio). Para o ambientalista eu poderia dizer que não precisa gastar 500 milhões de dólares para mostrar isso (enquanto o mundo sucumbe face ao aquecimento global e bilhões de pessoas passam por necessidades básicas); e também que não há qualquer chance de resquícios de ‘nativos’, ‘aborígenes’ e ‘índios’ chegar perto de vencer uma investida “civilizatória”. Essa, aliás, é uma briga já enterrada: bajulação de peles-vermelhas não têm a importância que acreditam. Para o anti-imperialista eu diria primeiro que o próprio filme, batendo recordes de público e de bilheteria, já representa por si próprio a dominância da indústria norte-americana no entretenimento mundial. E, depois, que as possíveis metáforas do filme são obscurecidas pelos espetaculares efeitos visuais e sonoros. Os sons, as cores, os bichos são tão arrebatadores e dinâmicos que não há qualquer chance dos já imbecilizados espectadores perceberem qualquer ‘mensagem nas entrelinhas’. O conteúdo aqui, apesar de ainda importante (se o “mau” vencesse, por exemplo, talvez o filme não seria tão aclamado) é secundário – confirmando a tendência ‘formalística’ da arte pós-moderna.
Infelizmente, esse que parece ser o caminho a ser seguido pelo cinema. Não haverá mais espaço para crítica, para grandes diretores, para realismo... O cinema será o que de melhor o homem tecnicamente produz, ainda que para isso (e talvez seja essa uma prerrogativa básica) tenha que sacrificar o conteúdo.